11 fevereiro 2008

Acordei bem, dormi com barulho

Acordei bem

Hoje (ontem, dia 10) eu acordei com o telefone azucrinando minha vida. Sabe quando você tá sonhando que conseguiu pegar aquele brigadeiro gigante (que sempre evaporava nas suas mãos) e tá enfiando ele inteiro na boca e acorda antes de sentir o gosto? Foi assim que eu acordei.

- Alô!, falei, mau humorada.

- Oi, Larissa, é o Genilson (*). Te acordei?

- Ahnnn... mais ou menos, Genilson (constrangida ao ver que já era quase meio-dia); faz o seguinte: vou acabar de acordar, lavar a cara e te ligo daqui a pouco, pode ser?

- Não precisa, só liguei pra te contar que eu passei no vestibular da Federal pra Medicina.

Sabe quando você está sonhando e justamente quando o tubarão vai te pegar e te fazer em pedacinhos e mastigar com aqueles dentes afiadíssimos você acorda nos braços do Wolverine de sunguinha vermelha? Acabei de acordar assim!!

- Ai, que bênção, Genilson!! Vamos sair pra comemorar!! Parabéns!!

Sabe, toda vitória é especial, mas a do Genilson é mais ainda. Conheci o Genilson no serviço voluntário. Eu era voluntária e ele era detento. Estava cumprindo pena por tráfico de drogas e roubo. Era viciado em cocaína. Largou a droga. Cumpriu a pena. Nesse meio tempo, voltou a estudar. E agora vai fazer Medicina!! Que orgulho de ter incentivado meu amigo – sim, ele se tornou um amigo – a mudar de vida!!

Levantei, tomei um banho e fiquei cantarolando até ouvir uma que me deixou passada.

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Dormi Com Esse Barulho

Fui prum churrasco e lá, naquela difícil vida de piscina, cerveja e picanha com os amigos, ouvi um comentário de que o pai do fulano não aceitava que ele fosse amigo do Pedro (*) porque o Pedro era preto. Meus olhos quase saltaram das órbitas. Primeiro porque o Pedro tem que tomar muito sol na moleira pra poder ser tecnicamente chamado de preto. Segundo porque ainda que ele fosse preto igual jabuticaba isso não é critério pra definir quais são as boas amizades. Terceiro: puta que pariu que eu pensava que isso já tinha virado coisa de novela!! Quando externei meu puta que pariu, ouvi do Pedro:

- Lalá, se eu te contar que isso existe e muito você não vai acreditar. Outro dia minha sobrinha chegou lá em casa chorando aos cântaros. Perguntamos pra ela o que tinha acontecido e ela respondeu que não queria mais ser pretinha (eles a chamam carinhosamente de Pretinha, a menina é linda, tem cinco anos, parece uma indiazinha, cabelo lisinho, preto, uma tetéia), que queria ser branquinha, ter olhos azuis e cabelo lourinho de cachos, igual princesa pra ela poder ir à festinha de aniversário da colega de turma.

Desta vez meus olhos não saíram das órbitas, mas ficaram vidrados. Que tipo de gente é esta que faz isto com uma criança?!! A mãe da tal coleguinha de sala não convidou a sobrinha do Pedro pra festinha porque a menina na concepção daltônica dela é preta. E como é que se explica pra uma criança que é melhor nem conviver com gente que acha que a cor da pele – ou a religião, nacionalidade, orientação sexual, e por aí vai – não servem de critério pra se verificar nada de nada? Como é que se explica pra uma criança de cinco anos que o mundo ainda tá coalhado de espírito de porco? Fui dormir ontem pensando na menininha. Isto aconteceu ontem e até agora não consegui parar de pensar nisso. Como é que pode, meu Deus?


(*) Nomes fictícios pra preservar a identidade dos amigos.

Larissa está muito, muito feliz pela conquista do seu amigo e sabe que ele ainda vai enfrentar muitos preconceitos pelos erros que cometeu. Mas está muito triste por saber que uma criança já está sentindo na pele um preconceito que achava estar acabando.

08 fevereiro 2008

Carnaval, salut!!

A ansiedade já não cabia mais em mim. O tempo passava e nada de chegar o carnaval. Mas finalmente chegou o grande dia. Era hora de fazer as malas.

Tem gente que consegue recarregar as baterias com um simples virar de ano. Reveillon e aquela coisa toda. Eu não. O carnaval sempre marcou a minha virada de ano. Cinco dias de folia cansam fisicamente, mas me deixam muito, muito leve. Pronta pra recomeçar. Como se minhas baterias fossem trocadas. Férias emocionais.

O carnaval deste ano foi diferente. Mas nem por isto deixou de me renovar. Houve surpresas desagradáveis. Mas também houve boas surpresas. Se por um lado algumas pessoas mostraram um lado ruim que eu não conhecia, por outro descobri que não houve decepção da minha parte. Eu simplesmente constatei algo que intimamente eu parecia já conhecer e decidi que aquilo não vai mais fazer parte da minha vida. É claro que rolou um stress básico, ver que fiquei me enganando com as atitudes alheias não foi bom. Mas foi bom conseguir ver, analisar e decidir se queria ou não continuar convivendo com aquelas atitudes. Não, definitivamente, eu não quero. Estou cansada de pessoas que só conjugam verbos na primeira pessoa do singular.

E por ter me afastado um pouco destas pessoas durante o carnaval, eu acabei convivendo mais com outras, que eu acabava relegando pra um segundo plano. Surpresa boa: encontrei pessoas amáveis, receptivas e generosas. Pessoas que sorriram de volta gratuitamente quando eu sorri. O mais engraçado é que eu sempre convivi com estas belas pessoas, mas nunca tinha me dado conta do quão especiais elas são. Desta vez eu me surpreendi. E fiquei muito feliz com a surpresa.

O melhor de tudo é que esta renovação aconteceu justamente no meu momento de catarse. Aconteceu num momento em que eu estava receptiva a mudanças, com a energia renovada, alegre, feliz, pulando, cantando e dançando a vida em carnaval. Tomei chuva, pisei no chão sujo, mergulhei no mar, me esfolei na areia, tomei vento na cara e queimei os pés de tanto dançar na Sapucaí. Abracei e fui abraçada; beijei e fui beijada. E sempre cercada de pessoas especiais. Ou que foram especiais um dia.

Bem, algumas não são mais especiais. Mas não tem problema: era hora da renovação. Uns vão, outros vêm, poucos permanecem. É assim que funciona. Neste carnaval alguns se foram (se bem que acho que fui eu quem os mandou embora), e também encontrei quem permaneça. Valeu a pena, carnaval. Mais uma vez, valeu.

E aos que até hoje permanecem, pierrots e colombinas, um brinde à vida!!


Larissa está soft, soft, soft de tanto pular carnaval. Está com as baterias recarregadas e torce pra elas durarem até o próximo carnaval, até a próxima renovação.

30 janeiro 2008

Feliz e Sem Alternativa

Tem coisas que a gente percebe, mas finge que não vê. Finge que não vê por medo, por conveniência, por não saber o que fazer com a informação. No meu caso, eu fingi que não vi porque sabia que teria que tomar uma atitude, mas não sabia qual atitude tomar.

Assim, fui deixando uma situação cômoda se desenvolver até o dia em que comecei a ter problemas. Fingir que não tinha percebido aquilo acabou afetando meu dia-a-dia e, sem que eu me desse conta, tomou uma proporção tão grande que foi ficando cada vez mais difícil tomar a atitude que, então, eu já sabia qual era. Então eu fui levando, como se aquilo não fosse pertinente. Que erro.

Se eu tivesse assumido e decidido tomar a atitude mais sensata, teria me planejado, me organizado, me preparado emocionalmente para depois executar aquele plano. Muitos percalços teriam sido evitados. Muita dor não teria sido sentida. Por outro lado, acabei adquirindo experiências que não teria adquirido. Boas e más experiências, mas experiências de vida, ambas.

De tanto enrolar, a vida tomou por mim a atitude que eu deveria ter tomado sozinha. Me deu um tombo daqueles e me vi sem alternativa senão fazer o que eu vinha evitando. Sabe que apesar do aperto, da situação complicada e desconfortável, estou me sentindo aliviada?

Deve ter gente pensando: que louca essa menina! Acabou de falar que levou um tombo e está numa situação complicada e depois fala que sentiu alívio. Mas é verdade. São sentimentos contraditórios, mas só aparentemente. É impressionante o alívio que senti depois que me vi forçada a tomar uma decisão. Não tem mais dúvida. Quer coisa mais angustiante que o tal livre arbítrio? Que ter alternativa? Fora o auto-massacre psicológico depois que você vê que fez uma má escolha. Que errou tão feio que não lhe sobrou alternativa. Aí é que reside o alívio. Ou você faz ou você faz.

Estou exatamente neste ponto: não me restaram alternativas senão fazer o que eu já devia ter feito. Então, meu amigo, é ir em frente, de peito aberto e sabendo que, embora não seja realmente fácil, é o melhor a se fazer. Até mesmo porque eu não tenho alternativa. E não ter alternativa não necessariamente é uma coisa ruim.
Larissa está chateada porque não conseguiu o seu "primeiro emprego", mas sabe que o horizonte é infinito e continua colorido.

29 janeiro 2008

Expectativas e Seus Efeitos Colaterais

Tenho vivido bastante ansiosa. Junto com tantos problemas de uma só vez, há tantas boas expectativas e nenhuma delas se concretiza para me dar um pouco de alento...
Será que sai aquele contrato? Ou será que vou ter que brigar uma briga de gente grande?
Será que sai aquele emprego? Ou será que vou ter que permanecer em tensão contínua por mais alguns anos?
Será que sai aquela oportunidade de aprendizagem? Ou será que vou voltar para a luta do "primeiro emprego"?
E o edital que eu tanto espero? Esse só sai no meio do ano.
Enquanto isso, as costas doem. Meus músculos estão tensos e retesados. Chego e me sentir empenada. Outro efeito colateral é a começão desenfreada.
Ô, meu Deus, será que pelo menos eu não podia ficar sem fome nestas horas de angústia ao invés de querer comer o mundo? Ou pelo menos sentir prazer em me matar de fazer ginástica numa academia?

Larissa hoje (ontem, dia 28) está muito, muito cansada, mas não está desanimada. Só está tendo um pouco de dificuldade em manter uma velocidade que lhe permita olhar ao seu redor.

25 janeiro 2008

Muitas, muitas cores!!

Hoje o dia começou bem: um e mail inesperado mostrou um novo horizonte.
Amanhã o dia também promete: o horizonte pode se encher de mais cores.
Será que minha vida vai voltar a ser colorida como uma aquarela?
Ou sou eu que estou voltando a enxergar colorido de novo?

Larissa está feliz por ter deixado de ver o mundo em sépia e preto e branco, porque a vida é boa demais pra não ser vivida ao vivo e à cores.

23 janeiro 2008

Sabe Que Eu Tô Gostando Desse Negócio?

Sempre achei terapia e psicanálise – não procurei saber a diferença, nem se há diferença – a coisa mais bacana do mundo. Aquele negócio de se conhecer melhor, encontrar seus medos, seus problemas e criar coragem pra enfrentá-los me parecia muito, mas muito interessante mesmo. Principalmente quando eram os outros que estavam lá no divã!

Eu mesma nunca tinha feito terapia, apesar de minhas amigas psicólogas insistirem que psicanálise isso, psicanálise aquilo, etc etc etc. Várias vezes elas tentaram me levar pro consultório de alguma professora sen-sa-ci-o-nal que ela tinham certeza que eu ia a-mar, sem êxito. Eu me sentia muito bem comigo mesma e, cá entre nós, se o problema está assim tão bem escondido a ponto de nem percebermos que ele existe, desencavar o fulano pra quê? E assim eu vim levando minha vida, alegre, feliz e saltitante.

Até o dia em que a vida me deu um golpe. Tirou meu chão, meu céu, meu ar. Fiquei igual bolha de sabão: vazia, voando, frágil, esperando só um toque, ainda que suave, pra acabar com tudo de vez e virar vários pinguinhos pelo chão. Naquele dia as amigas conseguiram me convencer a procurar um psicanalista. E lá fui eu. Pela primeira vez eu estava realmente aberta pra me conhecer melhor. Teve lá aquela outra vez que fui numa fulana, mas não deu liga, então nem conta.

Na primeira sessão quase desidratei de tanto chorar. Sabe quando a gente se sente sufocado? Aquela sala parecia um grande balão de oxigênio. E deixei boa parte do meu sufoco momentâneo lá. Fui embora mais leve e já pensando se eu realmente precisava fazer terapia ou só dar uma boa chorada mesmo. Por via das dúvidas, deixei marcada outra sessão pra semana seguinte.

Tive uma surpresa: passei a semana esperando chegar a outra sessão!! Me sentia menos frágil, mas ainda precisando falar, falar, falar até a boca ficar seca. E ouvir também, né? Porque as intervenções fazem parte. Minha terapia não é uma psicanálise clássica, daquelas que a gente fala, fala, fala e reza pra ter um insight sem ouvir a voz do psicanalista. Tudo bem que eu falo pra caramba, mas monólogo é demais até pra mim. Preciso de um feed back. Dessa vez não teve choro, mas teve engasgo e olhos mareados. Achei conveniente marcar pra outra semana de novo. Só mais um dia e eu estaria curada.

Na terceira sessão eu tive certeza que não havia cura pro meu caso, simplesmente porque não havia enfermidade. Havia sim uma incompreensão tão grande de tantas coisas que me deu vontade de ir ali todos os dias, durante um mês. Eu achava que assim eu teria alta brevemente. Mas psicanálise não funciona assim, então marquei pra outra semana.

No dia em que completei meu primeiro mês de terapia eu estava me sentindo dez milhões de vezes melhor do que no dia em que eu pisara ali pela primeira vez. Engraçado como a gente se escancara – ou é escancarado quase que na marra – com uma pessoa estranha, né? Acho que é porque pensamos que o terapeuta não vai nos julgar. Ledo engano. E ivo. Eles só não pronunciam o julgamento. Achei que estava preparada pra contar pro meu namorado – falo namorado, mas a gente já mora junto tem bastante tempo – que tinha começado a psicanálise. Afinal, minha terapeuta já sabia nossa história de cabo a rabo. Contei e ele me deu o maior apoio. Como eu amo este meu namorido! Minha terapeuta ia amar saber que meu namorido havia me dado o maior apoio.

Obviamente já deu pra perceber que a psicanálise havia entrado de vez na minha vida. Mas pra mim não era tão óbvio assim. Eu continuava achando que teria “alta” em pouco tempo.

Pois o tempo foi passando, passando e toda semana lá estava eu. Eu não saía mais com a cara vermelha de tanto chorar, nem com a cara triste. Saía pensativa, feliz por estar conhecendo um lado meu que nem eu sabia que existia.

Aí teve um dia que a terapeuta falou assim: hoje está fazendo um ano que começamos a análise. O que você me diz disso? E eu: menina, mas você sabe que eu tô gostando mesmo desse negócio?

Larissa nunca quis conhecer seus medos a fundo, mas chegou uma hora que não teve opção. Já se vai um ano de terapia e a Larissa que surge a cada dia descobriu que ter medo não tem problema algum.

22 janeiro 2008

Histórias Que Fazem a Gente se Emocionar


Eu sempre gostei mais de histórias do que de História. Principalmente aquelas contadas pela mãe, pelos avós, pelo livro, pela TV, pelo filme. Tenho uma especial predileção por livros e filmes. Consigo me transportar pra dentro deles, sinto cada uma das emoções. Dou risada, choro, sinto raiva, alegria, alívio. Freud deve ter alguma explicação pra isso.

O primeiro livro a me emocionar foi O Meu Pé de Laranja Lima. As duas surras memoráveis doeram em mim. Fui solidária com o Zezé até a última página. E chorei com ele. Como chorei com Os Meninos da Rua Paulo.

Ri muito com O Diário de Um Magro – isso mesmo, magro – e recorro a ele sempre que preciso reunir forças pra encarar uma dieta, o que não é pouco freqüente. Tanto que quando foi lançado O Diário de Um Magro 2 corri para a livraria.

O Diário de Bridget Jones me deu um grande alento: existem outras pessoas como eu na face da Terra. Não sou a única neurótica do planeta. Já Marley e Eu me fez rir e chorar. Meu cachorro também não é o único cachorro hiper-ativo, destruidor de móveis, plantas, chinelos e tudo o mais que encontrar pela frente.

O primeiro filme que lembro de ter me emocionado profundamente foi E.T. Aquelas bicicletas voando ficaram pra sempre na minha memória. E.T. Telefone. Minha casa. Aquele monstrinho lindo de tão feio me fez chorar. E rir muito quando tomou cerveja.

Pão e Tulipas é tão leve que um desatento pode achar a história um pouco boba. Mas bobo é quem não vê a beleza do filme. Ainda há tempo, diz a película, seja feliz. O Carteiro e O Poeta primeiro conheci por livro, depois assisti ao filme. Filmes não costumam fazer jus aos livros, mas este fez. Emocionante. Tanto quanto O Último Beijo.

O Filho da Noiva é um dos filmes mais lindos que já assisti. Há mais três filmes que coloco no mesmo patamar: Depois Daquele Baile, Em Busca da Terra do Nunca e As Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu. Me emocionei. E chorei.

O Labirinto de Fauno me transportou pra realidade fantástica, Minha Vida Sem Mim chegou a corroer minha alma, Central do Brasil me trouxe de volta à realidade e A Máquina me fez novamente acreditar em sonhos.

São tantos livros e tanto filmes que li e assisti. Mas muito mais são os livros e filmes que gostaria de ler e assistir. São histórias de vida e morte. São histórias de gente. São histórias de sentimentos. São histórias que fazem a gente se emocionar.


Larissa é emotiva e sentimental, mas não deixa que os outros saibam disso. Mantém seus sentimentos fechados a sete chaves e é por isto que vem tentando escrever aqui quase todos os dias.