04 maio 2008
Que Frustração ou Porque as Pessoas Não Comentam
27 abril 2008
Dinheiro, Luxo e Lixo
Sempre gostei de dinheiro. Quero dizer, das coisas que o dinheiro pode proporcionar. Gosto de conforto, de ter carro, morar em um apartamento bacana, poder usar roupa de grife, ganhar jóia de presente de aniversário, dar presente bacana pras pessoas que eu gosto, ir a bons lugares, viajar, viajar e viajar. Isto tudo custa muito dinheiro e, como não nasci, nem sou rica e dinheiro não cai do céu, custa muito, muito estudo e depois, muito trabalho, muito esforço, muito empenho mesmo e sorte. O fator sorte não pode ser ignorado. E nunca escondi de ninguém isso. Porque é verdade que eu prefiro ter um único brinquinho de ouro do que quinze brincos de bijuteria, um sapato de qualidade, do que dez sapatos da feira hippie, uma bolsa de couro do que sete bolsas de “couro sintético” (que lá na roça de onde venho a gente chama de plástico mesmo). Prefiro viajar só uma vez no ano inteiro, por pouco tempo, mas prum lugar legal, sem me preocupar com os gastos, do que viajar todo feriado, pra praia de mineiro no Espírito Santo, com dinheiro contado. Mas tem gente que pensa exatamente o contrário. Quem sou eu pra discutir. Cada um tem um gosto.
Mas, por outro lado, este meu gosto nunca foi respeitado. Fui tachada de patricinha, de burguesa, de metida a besta várias vezes na minha vida. Às vezes era porque eu estudava em boas escolas (mamãe investiu tudo que tinha na nossa educação), outras porque eu sempre andava arrumadinha (minha vaidade antecede minha concepção, tenho certeza) e comentava o que tinha passado no jornal. E, sinceramente? Nunca me abalei. Só uma vez perdi a compostura, quando uma menina me encheu tanto o saco me chamando de burguesa, que não me contive e falei: olha, você devia procurar saber do que está me chamando, porque burguesa é você, filha de comerciante, mas se você me acha “burguesa” só porque eu estudo em escola boa e não gosto de feira hippie, eu te digo que não, infelizmente não sou burguesa, mas se eu tivesse grana, aí sim você saberia o que é ser burguesa de verdade. Acho que ela não entendeu. Mas pelo menos parou de me encher a paciência.
O tempo foi passando e percebi que aquelas pessoas que me chamavam de burguesa, patricinha e metida a besta começaram a usar as mesmas roupas que eu usava, começaram a se preocupar com a aparência, começaram a vestir roupas e sapatos que certamente não eram da feira hippie, compraram carro, mudaram pra “zona sul”, começaram a viajar (algumas vezes para lugares de gosto duvidoso, é verdade, mas não deixa de ser viagem). Passaram a fazer tudo que eu desde há muito tempo já admitia que era doida pra fazer e já fazia quando tinha oportunidade e o dinheiro permitia. Mas percebi também que estas mesmas pessoas, apesar de estarem usufruindo dos confortos que o dinheiro pode oferecer, não admitiam que gostavam dos prazeres proporcionados por ele (embora fosse evidente que não compreendiam exatamente o que significavam estes “prazeres”). Vestiam-se com roupas de qualidade não por vaidade, mas sim por exigência da profissão, iam a bons restaurantes não porque eram lugares badalados, mas sim porque pessoas sérias e bem sucedidas – leia-se, ricas – iam lá e eles não podiam freqüentar um lugar qualquer. Trocavam de carro todo ano não por consumismo, mas sim porque o carro estava ficando velho, já tinha mais de dez mil quilômetros rodados, já estava dando despesa demais com manutenção. Mudaram-se para regiões nobres da cidade só porque era mais perto do trabalho. Desculpas esfarrapadas pra não admitir que a vida havia, com muito esforço, trabalho e uma dose de sorte, lhes permitido melhorar suas condições financeiras, ter mais conforto, enfim, “aburguesarem-se”.
Eu não, continuei gostando das coisas que já gostava antes. A diferença é que antes, estudante de escola técnica, não tinha condições de usufruir daqueles prazeres mundanos. Mas depois, já adulta, assumi meu lado mais terreno e, dentro do possível e do razoável, dou-me sim a pequenos luxos de vez em quando. Não tenho vergonha de dizer que gostaria de usar Prada com P maiúsculo, mas que, como não posso, também me recuso terminantemente a usar prada com p minúsculo. Tecido chinês que queima e brilha ao ser passado, não!!! Pelo amor de Deus, ninguém merece!!! Mas quando expresso estes meus, digamos, sentimentos, vejo olhares voltando-se para mim como se eu tivesse atirado uma menininha de seis anos pela janela do sexto andar. Estes mesmos olhos que me condenam, vestem roupas de grife, saem de carros de luxo, estão almoçando na mesa ao meu lado, no mesmo restaurante. Eles também gostam dos prazeres que o dinheiro proporciona, mas não admitem, sequer sabem o que consomem. Condenam-me por expor como somente meus os seus próprios pensamentos, aqueles que teimam em esconder. Observo que a maioria das pessoas tem vergonha de admitir que gosta de dinheiro, que gosta do que o dinheiro pode proporcionar. E sinceramente, não entendo por quê. Aí me pego pensando que este pessoal deve estar roubando ou vendendo drogas, fraudando o Governo, sei lá, fazendo alguma coisa desonesta pra ter dinheiro. Não faz sentido ter vergonha de admitir que se usufrui do fruto do próprio trabalho se ele for honesto e digno como devem ou deveriam ser todos os trabalhos.
Mas o mais engraçado é que estas mesmas pessoas não têm vergonha de contar que foram à Europa e não visitaram nenhum museu, mas que voltaram com as mãos cheias de sacolinhas da duty free. Não têm vergonha de contar que não estudam porque estudar não leva a nada, que eu estudei a vida toda e não tenho nem metade do dinheiro que eles torram todos os anos nas férias. As mesmas férias, sempre nos mesmos lugares, sempre com as mesmas pessoas, sem que nada lhes seja acrescentado. Não têm vergonha de contar que na casa deles não há livros, a não ser aqueles que a decoradora insistiu em colocar sobre a mesa de centro pra dar um ar “culto” ao ambiente gritantemente ignorante. E tampouco se constrangem em usar estes mesmos livros como suporte de copos molhados, deixando respingar gotas de um vinho que bebem porque alguém lhes disse que é “chique” e confessando que nem gostam de vinho. Ficam lá, comendo sushi com cara de quem come picanha, porque leram em algum lugar que sushi é in e carne vermelha é out, mas sequer procuram no dicionário o significado destas palavras.
Estas pessoas têm conseguido ganhar mais dinheiro do que eu, a despeito de todos os meus esforços, de tanto trabalho, e conseqüentemente, conseguem usufruir de luxos que eu não posso e nem sei se poderei usufruir algum dia. Mas não os invejo, o tempo passou e já tenho dúvidas se realmente gosto tanto de dinheiro assim, este tanto que permite o exercício de luxo de verdade. Trocaria de bom grado usar Prada com P maiúsculo por mais tempo livre para ler os livros que ainda não li, assistir os filmes que ainda não assiti, visitar os muitos lugares que ainda não conheci. Trocaria sem sombra de dúvidas a ostentação da riqueza pela segurança da moderação e pelo conforto do anonimato. Sim, eu continuo gostando de dinheiro e das coisas que ele pode me proporcionar, mas cada vez mais contento-me com menos do que sonhei na minha adolescência, porque a cada dia que passa, olho em volta e vejo que cada vez mais as pessoas usam o dinheiro para ter e não para ser e constato, com tristeza, que a mediocridade anda acompanhando o dinheiro.
Larissa é vaidosa, se acha bonita, gosta de se cuidar, de se vestir bem, de ter conforto; mas gosta muito mais de cuidar da sua cabeça, de conversar com pessoas que tenham conteúdo e de alimentar sua fome de conhecimento do mundo e das pessoas, e sabe que para isto vai ter que abrir mão de algumas coisas.
22 abril 2008
Tempo, tempo, mano velho
11 abril 2008
Mais Duas Meninas
Conhecemo-nos na infância mas acabamos perdendo contato com o passar do tempo. Encontramo-nos novamente na faculdade. E voltamos a ser amigas. São histórias demais pra contar. Foram anos intensos e divertidos aqueles. Acabou a faculdade, mas não acabou a amizade. Adultas, não deixamos a amizade se diluir no tempo.
As Duas Meninas
Tinham quatorze anos aquelas duas meninas. Uma era mais esperta, a outra, mais bobinha. Mas eram ambas adolescentes e a adolescência é uma fase de formação, de amadurecimento, e, claro, de muitas dúvidas, dilemas, angústias, tormentos. É a época em que se vive os extremos: a vida é maravilhosa ou a vida é um completo caos. Ficaram na mesma turma do colégio e acabaram ficando amigas. Muito amigas.
Acabou o ano e as meninas se separaram. Era uma escola técnica e cada uma escolheu um curso. Cada uma foi pra uma sala diferente. Engana-se quem pensa que houve também a separação da amizade. Estar em cursos diferentes evidenciou diferenças, mas não as distanciou. Houve momentos em que as meninas estiveram sim um pouco afastadas, mas muito mais pelo curso do que pela diluição da amizade. Continuaram amigas. E pelo menos uma delas achava que o que as mantinha unidas era o amor pela música, pelo teatro, pela literatura e a completa aversão pela educação física!
No terceiro ano distanciaram-se um pouco mais. Cada uma tinha seus interesses, seus objetivos, mas só em sala de aula. Do lado de fora, nos intervalos, lá estavam as duas, sonhando com um futuro onde as pessoas seriam sempre felizes. Naquela época, as meninas, então com dezesseis anos, ainda acreditavam que haveria uma revolução cultural e que as pessoas se tornariam mais sensíveis. As meninas já não acreditavam tanto que poderiam mudar o mundo, mas tinham certeza que iam tentar sempre.
Uma das meninas foi embora. Mudou-se para o outro lado do mundo. A menina que ficou escreveu à mão em algumas folhas de caderno a letra inteirinha de “Meu Caro Amigo” e mandou pra que estava longe. Ainda era o tempo das cartas. Foram poucas, é verdade. A menina que estava longe ficou enfurecida, mas voltou e encontrou a outra a esperando com o violão na mão. Escrever aquela música tinha até doído a mão. Naquele dia cantaram e tocaram até tarde da noite e ambas perceberam que muita coisa havia mudado naquele ano de distância. As meninas haviam mudado muito, estavam menos adolescentes, estavam mais amigas.
Mas a vida novamente acabou separando as duas meninas. Cada uma morando em uma cidade, ambas trabalhando de dia pra estudar à noite, sempre muito cansadas. Falavam-se por telefone, mas isto passou a acontecer apenas duas vezes por ano: nos aniversários. Encontraram-se algumas vezes, claro. Havia as festas de ex alunos e elas combinavam de se ver lá. Divertiam-se, riam muito, lembravam dos tempos da adolescência e iam embora, cada uma pro seu lado. Quanto riso, quanta lágrima!! Mas o fato é que se afastaram...
Muita coisa aconteceu durante o período em que as meninas estiveram afastads. Tinham notícias uma da outra por amigos comuns, pelo orkut, às vezes por e mail. Uma das meninas era muito mais relapsa que a outra; ligava menos, escrevia menos. Mas sonhava muito. E muito alto. Sonhava com a harmonia entre os homens, com a paz, com a alegria. A outra menina se casou, conseguiu um bom emprego e mudou-se para o interior de vez. Voltaram a se encontrar no casamento de uma delas, a que jurara pra si mesma nunca se casar. Coisas da vida. Separaram-se novamente depois de um abraço forte e sincero. Uma das meninas teve uma filhinha, que a outra sequer se dignou a ir conhecer. Estava correndo contra o tempo. Sempre o tempo era o culpado. Mas não era só pra menina recém casada, era pra recém mamãe também. E assim a amizade se mantinha, apesar do pouco contato.
Acabou indo embora à francesa. Aquela festinha de criança havia trazido lembranças e emoções demais pra uma noite só. A menina foi embora feliz, mas com medo da outra ficar chateada por ela ter sumido sem dar tchau. No dia seguinte, pensou em telefonar, mas ia dizer o quê? Enrolou, enrolou e acabou não ligando. Pior, mergulhada nas suas reflexões (que apelidara carinhosamente de revolução existencial interna), esqueceu-se do aniversário da amiga e aí se perdeu. Isto nunca havia acontecido em quase quinze anos. A menina ficou bastante envergonhada, mas também não ligou. Dentro de exatamente um mês seria o seu aniversário e se a amiga não telefonasse, aí ela telefonaria.
09 abril 2008
Solidão
Pouquíssimas vezes na minha vida me senti só. Meu problema sempre foi exatamente o contrário. Muitas vezes precisei ficar sozinha, mas não deixaram. E de tanto ninguém me deixar ficar um pouco sozinha, acabei deixando de perceber quando precisava me isolar e ficar comigo mesma por um tempo.
A duras penas retomei as rédeas da minha vida. Pelo menos dentro da minha cabeça. Andei ficando sozinha meio que na marra. Tive que me afastar um pouco das pessoas, mesmo das que eu mais amo. Foi difícil, mas acho que valeu a pena. Parei, refleti, tomei decisões. Infelizmente não sobre o que eu quero, mas pelo menos sobre o que não vou fazer da minha vida. E já acho isto um grande progresso. Aí voltei ao convívio com as pessoas. Voltei melhor, meio perdida, mas com certeza mais feliz. Abdiquei novamente da solidão.
Desde que me casei, estou sozinha em casa pela primeira vez. Aliás, minto. É injusto dizer que fiquei sozinha tendo um cachorro atrás de mim cem por cento do tempo em que estou dentro de casa. Mas é diferente. Reconheço o valor da amizade canina, mas é diferente. Bem, o fato é que, então, mesmo com um rabo que balança incessantemente na minha frente buscando minha atenção, eu me senti pela primeira vez na vida muito só.
- Você trocaria tudo isso pelo amor da sua vida?
- E você? Trocaria?
Eu?! Não!! Eu não troco, não!! Nem no presente, nem no futuro. O tempo verbal já diz tudo: futuro do pretérito, o que nunca vai acontecer, vai ser sempre uma hipótese. Eu não troco o amor da minha vida, que eu já encontrei, por nada. Eu não troco ter quem me espere chegar, ter a quem esperar chegar, por nada neste mundo. E nestes dias, que eu cheguei sem ter quem me esperasse, que eu não tive a quem esperar, cheguei a achar que havia descoberto o que é solidão de verdade.
Larissa está quase morrendo de saudades do seu marido, mas não se arrepende de não estar junto com ele agora. Sabe que mais forte que a tristeza de deixar partir é a alegria de ver voltar.
23 março 2008
Feiúra
Primeiramente eu gostaria de saber se alguém aqui conhece pessoalmente este cidadão.
Porque embora eu transite naturalmente no ambiente artístico e tenha um ótimo relacionamento com as poucas pessoas do meio com as quais convivo, fui assolada por uma antipatia imediata ao ler a resposta deste senhor à questão proposta por Joaquim Ferreira dos Santos em sua coluna: o que fazer para melhorar o Rio.
Parece-me que a única questão relevante no que diz respeito às mazelas do Rio de Janeiro, e ao que pode ser feito para torná-lo melhor, cinge-se à manutenção ou recuperação de suas “belezas” – naturais e arquitetônicas. Foi a impressão que tive ao ler as sugestões apresentadas na coluna, embora a que reproduzi acima tenha-me chamado especial atenção.
Pois bem. Preocupemo-nos com a arquitetura das favelas, sem nos perguntar as razões de sua existência e expansão! Preocupemo-nos com os ecolimites e esqueçamo-nos de que a dignidade do homem faz parte do ecossistema! Preocupemo-nos com a abertura de ruas minimamente largas, para que casebres miseráveis não se empilhem uns sobre os outros e tapemos os olhos para realidade que insiste em nos incomodar. Chega de feiúra, preocupemo-nos com a beleza!!
Mas não nos esqueçamos de que optar pela beleza não resolverá os problemas da feiúra, não tornará o Rio melhor. São feias as favelas? Sim, são feias as favelas, mas há feiúra maior, acredite.
Larissa ficou indignada com a sugestão do senhor artista plástico, que deve viver enclausurado em seu ateliê, ou ter o dom de ignorar a realidade que nos bate diariamente à porta. Certamente seu mordomo não deixa a realidade entrar.