29 fevereiro 2008
Um tempo, dois tempos
Andei uns dias sem conseguir escrever nada. Falta de inspiração não era. Estava às voltas com uma monografia sem fim, mas que está finalmente quase pronta pra ser entregue. Acho que trabalho acadêmico é igual obra. Uma amiga engenheira que fala isso: obra não fica pronta, obra você entrega. Falta pouco. Até segunda sai.
Também não ando muito legal. Eu sabia que me recuperar da canalhice que me fizeram seria difícil. E está sendo muito difícil mesmo, apesar de tanto apoio, de tanto ombro amigo, de tanto abraço apertado. Sei que não posso me entregar, me deixar abater, mas tem dia que simplesmente não dá. Tem dias que eu ainda preciso chorar pra não morrer sufocada. Chorar de verdade, de molhar a cara toda, soluçar, embaçar os óculos, borrar a maquiagem e ficar com a cara inchada e vermelha. E algo me diz que as lágrimas não secarão tão cedo.
Larissa fez este blog num momento difícil demais da sua vida justamente pra poder desabafar. Mas acabou se afeiçoando ao blog e não quer mais ficar escrevendo coisas tristes e doídas porque ela não é triste, nunca foi. Quer voltar a ser quem era, escrever coisas alegres, para que as pessoas que visitam o blog a conheçam como ela é de verdade.
Marcadores:
Lágrimas Vida Monografia
21 fevereiro 2008
Vergonha Nacional
Afora toda a bandalheira que vem acontecendo neste país nos últimos anos (e não apenas nos últimos seis), uma questão que pode parecer singela à primeira vista chega a me fazer sentir saudades de FHC e D. Ruth: educação, em todos os aspectos possíveis e imagináveis.
Até a posse do Presidente Lula, NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTE PAÍS um dirigente envergonhou tanto seu povo com as pérolas que diz e as asneiras que faz. Eu já estava até disposta a relevar o fato de o Presidente ter se esquecido que as instituições democráticas de um país não têm partido político ao colocar no jardim do Palácio UMA ESTRELA DO PT, até o mesmo digníssimo senhor usar um PIN DO PT em viagens internacionais, a priori, de cunho diplomático. Quebra de protocolo parece ser um marco no mandato do atual Presidente: basta colocar nas ferramentas de pesquisa da internet “Lula” “quebra de protocolo”. Aproximadamente 113.000 resultados para a pesquisa dos parâmetros informados.
Como se não bastasse o constrangimento – e cutucão público e amplamente divulgado pelos meios de comunicação internacionais do Chefe de Estado anfitrião – causado ao dizer, em discurso na Namíbia, que ESTAVA IMPRESSIONADO COM O PAÍS, QUE NEM PARECIA QUE ESTAVA NA ÁFRICA, o Presidente eleito por uma maioria da qual orgulhosamente não faço parte tampouco se constrangeu ao afirmar, em NOVA YORK, que O BRASIL SÓ NÃO FAZ FRONTEIRA COM CHILE, EQUADOR E BOLÍVIA.
O que dizer do BRINDE à felicidade do PRESIDENTE SÍRIO AL ASSAD, que compreensivelmente permaneceu sentado e não ergueu a taça, esquecendo-se o Presidente que muçulmanos não ingerem álcool? Parece-me que também se esqueceu de que não existe um CONTINENTE ÁRABE para, no século XXI, junto com o continente sul americano, não esperar ser descoberto.
Em reunião com Chefes de Estado em LONDRES, onde o regime é parlamentarista e o mandato do primeiro-ministro não tem prazo para acabar, afirmou que “EM DOIS OU TRÊS ANOS possivelmente não estaremos aqui, talvez sejam outros. E NEM SERÁ O TONY BLAIR QUE ESTARÁ CONVIDANDO, SERÁ OUTRA PESSOA". Não satisfeito, sempre dá apoio EXPRESSO e INCONDICIONAL a HUGO CHAVÉZ, um dos maiores débeis mentais da atualidade, a quem o Rei Juan Carlos da Espanha acabou mandando CALAR A BOCA. Virou estampa de camiseta, não sem razão.
Aliás, tenho que admitir que se há neste mundo um povo que passa tanta ou mais vergonha que o brasileiro quando se trata de Chefe de Estado, é o povo venezuelano. Ninguém merece ver o Presidente do seu país pondo a cara na TV em rede internacional pra falar asneiras deste naipe:
"Esse é um gesto de desprendimento pessoal que o enaltece. Isso é uma lição para aqueles que o acusam de ter se aferrado ao poder desesperadamente." (Hugo Chávez, presidente venezuelano, sobre a renúncia de Fidel Castro, que passou 49 anos no comando de Cuba, em 19/02/08)
Como também não poderia deixar de ser, o Brasil tem uma primeira dama à altura do Presidente: em visita à França, a primeira dama não se dignou a VISITAR O LOUVRE. Preferiu sair às compras, em época em que falar em CARTÃO CORPORATIVO era assunto meramente administrativo, e não manchete de jornal.
Faço minhas as palavras do Coltrane (www.resistindo.com.br):
Até a posse do Presidente Lula, NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTE PAÍS um dirigente envergonhou tanto seu povo com as pérolas que diz e as asneiras que faz. Eu já estava até disposta a relevar o fato de o Presidente ter se esquecido que as instituições democráticas de um país não têm partido político ao colocar no jardim do Palácio UMA ESTRELA DO PT, até o mesmo digníssimo senhor usar um PIN DO PT em viagens internacionais, a priori, de cunho diplomático. Quebra de protocolo parece ser um marco no mandato do atual Presidente: basta colocar nas ferramentas de pesquisa da internet “Lula” “quebra de protocolo”. Aproximadamente 113.000 resultados para a pesquisa dos parâmetros informados.
Como se não bastasse o constrangimento – e cutucão público e amplamente divulgado pelos meios de comunicação internacionais do Chefe de Estado anfitrião – causado ao dizer, em discurso na Namíbia, que ESTAVA IMPRESSIONADO COM O PAÍS, QUE NEM PARECIA QUE ESTAVA NA ÁFRICA, o Presidente eleito por uma maioria da qual orgulhosamente não faço parte tampouco se constrangeu ao afirmar, em NOVA YORK, que O BRASIL SÓ NÃO FAZ FRONTEIRA COM CHILE, EQUADOR E BOLÍVIA.
O que dizer do BRINDE à felicidade do PRESIDENTE SÍRIO AL ASSAD, que compreensivelmente permaneceu sentado e não ergueu a taça, esquecendo-se o Presidente que muçulmanos não ingerem álcool? Parece-me que também se esqueceu de que não existe um CONTINENTE ÁRABE para, no século XXI, junto com o continente sul americano, não esperar ser descoberto.
Em reunião com Chefes de Estado em LONDRES, onde o regime é parlamentarista e o mandato do primeiro-ministro não tem prazo para acabar, afirmou que “EM DOIS OU TRÊS ANOS possivelmente não estaremos aqui, talvez sejam outros. E NEM SERÁ O TONY BLAIR QUE ESTARÁ CONVIDANDO, SERÁ OUTRA PESSOA". Não satisfeito, sempre dá apoio EXPRESSO e INCONDICIONAL a HUGO CHAVÉZ, um dos maiores débeis mentais da atualidade, a quem o Rei Juan Carlos da Espanha acabou mandando CALAR A BOCA. Virou estampa de camiseta, não sem razão.
Aliás, tenho que admitir que se há neste mundo um povo que passa tanta ou mais vergonha que o brasileiro quando se trata de Chefe de Estado, é o povo venezuelano. Ninguém merece ver o Presidente do seu país pondo a cara na TV em rede internacional pra falar asneiras deste naipe:
"Esse é um gesto de desprendimento pessoal que o enaltece. Isso é uma lição para aqueles que o acusam de ter se aferrado ao poder desesperadamente." (Hugo Chávez, presidente venezuelano, sobre a renúncia de Fidel Castro, que passou 49 anos no comando de Cuba, em 19/02/08)
Como também não poderia deixar de ser, o Brasil tem uma primeira dama à altura do Presidente: em visita à França, a primeira dama não se dignou a VISITAR O LOUVRE. Preferiu sair às compras, em época em que falar em CARTÃO CORPORATIVO era assunto meramente administrativo, e não manchete de jornal.
Faço minhas as palavras do Coltrane (www.resistindo.com.br):
Racha minha cara de vergonha! Cachaceiro burro e miserável!
Larissa chega a achar que talvez devêssemos agradecer aos céus por ainda não estarmos com todas as relações diplomáticas cortadas, completamente banidos do mundo conhecido e habitado pelo homem, mundo dito civilizado.
Larissa chega a achar que talvez devêssemos agradecer aos céus por ainda não estarmos com todas as relações diplomáticas cortadas, completamente banidos do mundo conhecido e habitado pelo homem, mundo dito civilizado.
Marcadores:
Política Vergonha Diplomacia
20 fevereiro 2008
Alunos e Professores: uma relação de amor e ódio
Demorei muito a admitir isto pra mim mesma, mas o fato é que eu adoro estudar, adoro estar na sala de aula, se pudesse, fazia curso de tudo que há. Freud explica porque eu não admitia que gosto de estudar, mas o fato é inegável. Ninguém mete a cara pra fazer pós-graduação sem ter renda fixa do jeito que eu fiz se não gostar muito de estudar.
Tive professores excelentes na pós-graduação. Mas é claro que sempre tem aquele com quem você não se dá bem. E obviamente, eu não fujo à regra. E parecia que tudo conspirava pra eu ter um confronto com aquele professor. É verdade que já fui meio implicada com o sujeito porque tenho uma péssima experiência com professores-estrela. Professores-estrela são aqueles que têm pós-pós-doutorado em alguma coisa praticamente incompreensível para os reles mortais, falam quinze línguas fluentemente, escrevem livros e mais livros usando a mesma linguagem incompreensível da tese de pós-pós-doutorado e um único manual com linguagem palatável. E este manual simplesmente se esgota em questão de segundos a cada vez que é reimpresso ou reeditado: o cara ainda fica rico, se já não era. Aí eles acabam se achando o último biscoito do pacote e tomam a sua (eventual) ausência na aula deles como ofensa pessoal. Pra estes, a única justificativa plausível para alguém matar a aula deles é estar sendo sepultado. E o meu era destes.
Dei o azar de na primeira aula dele, que nem foi num dia regular da pós-graduação, eu estar em São Paulo a trabalho. Não tinha jeito, não dava pra voltar, assistir a aula e depois pegar outro avião pra voltar pra São Paulo. Matar a aula era a opção mais razoável, então, matei sem remorsos. Na semana seguinte, tomei o cuidado de sair mais cedo do trabalho pra não me atrasar pra aula do fulano, já que eu havia sido alertada que ele era cheio das gracinhas. Evidentemente, caiu uma tromba d’água, o trânsito que já é caótico conseguiu ficar pior e eu me atrasei quinze minutos. Corri na esperança dele também ter sido pego pela tromba d’água, mas qual é. A porta já estava fechada quando cheguei. Calcei a cara e entrei, né, fazer o quê? Pagando mil contos por mês pra ter aula duas vezes por semana, eu não ia me dar ao luxo de perder a aula toda por causa de quinze minutos de atraso. O cara me olhou feio, mas não falou nada. Mas fez expressão de quem diz: depois a débil mental é reprovada e reclama que o professor é ruim.
Desde então, o universo começou a conspirar pra eu ter toda a sorte de imprevistos nos dias da aula do fulano. Na aula seguinte, lá estava eu previdentemente nos arredores do instituto uma hora antes da aula começar, quando meu celular tocou. Era uma amiga, simplesmente arrasada, chorando aos cântaros, porque tinha recebido um e-mail babaca do babaca do ex-namorado dela dizendo que reconhecia o quão babaca ele havia sido com ela e que era tão babaca que não tinha coragem de falar isso com ela cara a cara. Ela me perguntou se eu estava perto do instituto e se podia encontrar com ela (ela trabalha lá perto). Não tinha jeito, mais uma aula do camarada estava fadada, no mínimo, a um atraso. Mas eu não ia abandonar minha amiga naquela situação.
Tive a brilhante idéia de ligar pro meu namorido ir se encontrar conosco – ele é amigo dela também – pra ele ceder o ombro amigo enquanto eu assistia à aula de Átila, o Huno. Mesmo assim, atrasei meia hora. Pus o pé na sala e ouvi: “pelo visto você não tem muito compromisso com o curso”. Como assim não tenho compromisso com o curso?! “Pelo visto o senhor deve ter algum recalque se não ser juiz pra estar me julgando assim sem me conhecer”. Sentei e fiz de conta que nada tinha acontecido. Como Murphy impera, o fulano tava justamente falando sobre uma matéria que eu tinha uma dúvida e, claro, o ponto já havia sido abordado. Enfiei o rabo entre as pernas e assisti à aula caladinha, afinal, tava errada mesmo. Quando deu a hora do intervalo, o professor fala:”turma, quem tiver alguma dúvida, estou à disposição”. Bem, achei que valia a pena ir lá expor minha dúvida, mesmo sabendo que corria o risco de levar uma patada. E até porque “turma” me incluía.
- Boa noite, Professor, eu tenho uma dúvida. (cara constrangida)
- Pois, não. Qual é a sua dúvida? (cara solícita)
- Mas se a rebimboca da parafuseta for usada desta forma, não corre o risco de explodir tudo? (cara de pau)
- Eu expliquei este tópico, mas a senhorita não estava em sala. (cara cínica)
- Senhorita, não, senhora, porque eu sou uma mulher casada!! (cara de puta da vida)
A guerra estava declarada.
Na aula seguinte, um sábado, cheguei cedo porque não tava afim de encheção de saco. Alguém tinha deixado um saquinho de jujuba na mesa pra quem quisesse pegar. Fiquei olhando o saquinho e pensando se valia a pena gastar calorias com jujuba quando o fulano chegou e disse, olhando na minha cara: “olha quem já está aqui!” Imediatamente comecei a repetir para mim mesma o mantra “você não vai comprar a provocação dele, você não vai comprar a provocação dele, você não vai comprar a provocação dele” e me acalmei. Sorri e não disse nada, afinal, sou uma dama. Aí ele perguntou, vendo o saquinho na minha mesa:
- De quem esse saquinho de jujuba aqui? (cara de quem ama jujuba)
- A fulana trouxe pra todo mundo, pode pegar se quiser. (sendo civilizada)
- Vou pegar, aceita jujuba? (pegando o saquinho)
- Aceito. (achando que era um sinal de paz)
- Não dou porque a senhora é muito topetuda! (se segurando pra não rir da minha cara)
Aí eu tive que rir, né? Não tinha alternativa.
Chegou o resto da turma e o fulano foi por uma fita (hellooooo, fita!!) pra gente assistir uma palestra de um cara alemão, com tradução simultânea. Deu um pau no equipamento e a tradução simultânea não funcionou de jeito nenhum. E o cara lá, falando alemão pra gente. Quando o fulano viu que não ia ter jeito mesmo, desligou tudo e começou a ladainha (nesta hora eu já estava em cólicas de vontade de rir da cara dele):
- Putz, estas coisas me matam, preparei a aula toda em cima desta palestra e a coordenação me dá uma desta, manda equipamento que não funciona, minha cabeça tá até doendo. Alguém tem uma neosaldina aí?
(silêncio)
- Eu tenho. (pensei em trocar por uma jujuba, mas aí seria muita baixeza da minha parte)
- Só ela que tem, gente, pelo amor de Deus, ela tripudia da minha aula e eu ainda vou ficar devendo uma neosaldina pra ela? Ah, não. Não quero não (rindo), porque uma só não adianta, eu tomo de duas em duas.
- Então você vai ficar me devendo são duas neosaldinas! (tirando a cartela cheia da bolsa)
Achei que tínhamos meio que feito um pacto de paz, né? Afinal, eu tinha salvado a cabeça dele da implosão.
Pois não é que quando fui conferir minhas notas, o fulano tinha me dado exame especial por freqüência?! Ele me deu falta nos dias que atrasei e eu tava em exame especial por uma falta!! Aí fui conferir minha nota, né, porque com um bom aproveitamento eu poderia tentar o abono. Minha nota: NOVENTA E OITO!!! Quer dizer, o fulano, mesmo vendo que tinha tido noventa e oito por cento de aproveitamento me pôs no exame especial!!! Liguei pra coordenação.
- Bom dia, fulana, o senhor (que é pouco mais velho que eu) coordenador está aí? Posso falar com ele? (minuto) Oi, coordenador, tudo bem? Estou conferindo as minhas notas e freqüências e vi aqui que estou em exame especial na disciplina rebimboca da parafuseta por causa de uma falta apesar de ter tido 98% de aproveitamento.
- Ah, então é com você que o fulano anda implicando desta vez!!!
Ou seja, o fulano tem por hobbie atazanar a vida de um aluno por semestre e, adivinhem? Eu era a atazanada da vez!
Problema resolvido, pós-graduação acabada, encontro na rua uma ex-colega de turma que estava trabalhando no departamento que o fulano gerenciava. Perguntei como que ela conseguia trabalhar com um tipinho daqueles, sádico, que se divertia às custas de atazanar as pessoas e ainda tive que ouvir esta: ele é só elogios pra você!
- Aquela Larissa é uma das mulheres mais irrascíveis que já conheci, bocuda mesmo, precisa urgentemente de um relógio, mas tenho que admitir que é uma excelente aluna!
Tive professores excelentes na pós-graduação. Mas é claro que sempre tem aquele com quem você não se dá bem. E obviamente, eu não fujo à regra. E parecia que tudo conspirava pra eu ter um confronto com aquele professor. É verdade que já fui meio implicada com o sujeito porque tenho uma péssima experiência com professores-estrela. Professores-estrela são aqueles que têm pós-pós-doutorado em alguma coisa praticamente incompreensível para os reles mortais, falam quinze línguas fluentemente, escrevem livros e mais livros usando a mesma linguagem incompreensível da tese de pós-pós-doutorado e um único manual com linguagem palatável. E este manual simplesmente se esgota em questão de segundos a cada vez que é reimpresso ou reeditado: o cara ainda fica rico, se já não era. Aí eles acabam se achando o último biscoito do pacote e tomam a sua (eventual) ausência na aula deles como ofensa pessoal. Pra estes, a única justificativa plausível para alguém matar a aula deles é estar sendo sepultado. E o meu era destes.
Dei o azar de na primeira aula dele, que nem foi num dia regular da pós-graduação, eu estar em São Paulo a trabalho. Não tinha jeito, não dava pra voltar, assistir a aula e depois pegar outro avião pra voltar pra São Paulo. Matar a aula era a opção mais razoável, então, matei sem remorsos. Na semana seguinte, tomei o cuidado de sair mais cedo do trabalho pra não me atrasar pra aula do fulano, já que eu havia sido alertada que ele era cheio das gracinhas. Evidentemente, caiu uma tromba d’água, o trânsito que já é caótico conseguiu ficar pior e eu me atrasei quinze minutos. Corri na esperança dele também ter sido pego pela tromba d’água, mas qual é. A porta já estava fechada quando cheguei. Calcei a cara e entrei, né, fazer o quê? Pagando mil contos por mês pra ter aula duas vezes por semana, eu não ia me dar ao luxo de perder a aula toda por causa de quinze minutos de atraso. O cara me olhou feio, mas não falou nada. Mas fez expressão de quem diz: depois a débil mental é reprovada e reclama que o professor é ruim.
Desde então, o universo começou a conspirar pra eu ter toda a sorte de imprevistos nos dias da aula do fulano. Na aula seguinte, lá estava eu previdentemente nos arredores do instituto uma hora antes da aula começar, quando meu celular tocou. Era uma amiga, simplesmente arrasada, chorando aos cântaros, porque tinha recebido um e-mail babaca do babaca do ex-namorado dela dizendo que reconhecia o quão babaca ele havia sido com ela e que era tão babaca que não tinha coragem de falar isso com ela cara a cara. Ela me perguntou se eu estava perto do instituto e se podia encontrar com ela (ela trabalha lá perto). Não tinha jeito, mais uma aula do camarada estava fadada, no mínimo, a um atraso. Mas eu não ia abandonar minha amiga naquela situação.
Tive a brilhante idéia de ligar pro meu namorido ir se encontrar conosco – ele é amigo dela também – pra ele ceder o ombro amigo enquanto eu assistia à aula de Átila, o Huno. Mesmo assim, atrasei meia hora. Pus o pé na sala e ouvi: “pelo visto você não tem muito compromisso com o curso”. Como assim não tenho compromisso com o curso?! “Pelo visto o senhor deve ter algum recalque se não ser juiz pra estar me julgando assim sem me conhecer”. Sentei e fiz de conta que nada tinha acontecido. Como Murphy impera, o fulano tava justamente falando sobre uma matéria que eu tinha uma dúvida e, claro, o ponto já havia sido abordado. Enfiei o rabo entre as pernas e assisti à aula caladinha, afinal, tava errada mesmo. Quando deu a hora do intervalo, o professor fala:”turma, quem tiver alguma dúvida, estou à disposição”. Bem, achei que valia a pena ir lá expor minha dúvida, mesmo sabendo que corria o risco de levar uma patada. E até porque “turma” me incluía.
- Boa noite, Professor, eu tenho uma dúvida. (cara constrangida)
- Pois, não. Qual é a sua dúvida? (cara solícita)
- Mas se a rebimboca da parafuseta for usada desta forma, não corre o risco de explodir tudo? (cara de pau)
- Eu expliquei este tópico, mas a senhorita não estava em sala. (cara cínica)
- Senhorita, não, senhora, porque eu sou uma mulher casada!! (cara de puta da vida)
A guerra estava declarada.
Na aula seguinte, um sábado, cheguei cedo porque não tava afim de encheção de saco. Alguém tinha deixado um saquinho de jujuba na mesa pra quem quisesse pegar. Fiquei olhando o saquinho e pensando se valia a pena gastar calorias com jujuba quando o fulano chegou e disse, olhando na minha cara: “olha quem já está aqui!” Imediatamente comecei a repetir para mim mesma o mantra “você não vai comprar a provocação dele, você não vai comprar a provocação dele, você não vai comprar a provocação dele” e me acalmei. Sorri e não disse nada, afinal, sou uma dama. Aí ele perguntou, vendo o saquinho na minha mesa:
- De quem esse saquinho de jujuba aqui? (cara de quem ama jujuba)
- A fulana trouxe pra todo mundo, pode pegar se quiser. (sendo civilizada)
- Vou pegar, aceita jujuba? (pegando o saquinho)
- Aceito. (achando que era um sinal de paz)
- Não dou porque a senhora é muito topetuda! (se segurando pra não rir da minha cara)
Aí eu tive que rir, né? Não tinha alternativa.
Chegou o resto da turma e o fulano foi por uma fita (hellooooo, fita!!) pra gente assistir uma palestra de um cara alemão, com tradução simultânea. Deu um pau no equipamento e a tradução simultânea não funcionou de jeito nenhum. E o cara lá, falando alemão pra gente. Quando o fulano viu que não ia ter jeito mesmo, desligou tudo e começou a ladainha (nesta hora eu já estava em cólicas de vontade de rir da cara dele):
- Putz, estas coisas me matam, preparei a aula toda em cima desta palestra e a coordenação me dá uma desta, manda equipamento que não funciona, minha cabeça tá até doendo. Alguém tem uma neosaldina aí?
(silêncio)
- Eu tenho. (pensei em trocar por uma jujuba, mas aí seria muita baixeza da minha parte)
- Só ela que tem, gente, pelo amor de Deus, ela tripudia da minha aula e eu ainda vou ficar devendo uma neosaldina pra ela? Ah, não. Não quero não (rindo), porque uma só não adianta, eu tomo de duas em duas.
- Então você vai ficar me devendo são duas neosaldinas! (tirando a cartela cheia da bolsa)
Achei que tínhamos meio que feito um pacto de paz, né? Afinal, eu tinha salvado a cabeça dele da implosão.
Pois não é que quando fui conferir minhas notas, o fulano tinha me dado exame especial por freqüência?! Ele me deu falta nos dias que atrasei e eu tava em exame especial por uma falta!! Aí fui conferir minha nota, né, porque com um bom aproveitamento eu poderia tentar o abono. Minha nota: NOVENTA E OITO!!! Quer dizer, o fulano, mesmo vendo que tinha tido noventa e oito por cento de aproveitamento me pôs no exame especial!!! Liguei pra coordenação.
- Bom dia, fulana, o senhor (que é pouco mais velho que eu) coordenador está aí? Posso falar com ele? (minuto) Oi, coordenador, tudo bem? Estou conferindo as minhas notas e freqüências e vi aqui que estou em exame especial na disciplina rebimboca da parafuseta por causa de uma falta apesar de ter tido 98% de aproveitamento.
- Ah, então é com você que o fulano anda implicando desta vez!!!
Ou seja, o fulano tem por hobbie atazanar a vida de um aluno por semestre e, adivinhem? Eu era a atazanada da vez!
Problema resolvido, pós-graduação acabada, encontro na rua uma ex-colega de turma que estava trabalhando no departamento que o fulano gerenciava. Perguntei como que ela conseguia trabalhar com um tipinho daqueles, sádico, que se divertia às custas de atazanar as pessoas e ainda tive que ouvir esta: ele é só elogios pra você!
- Aquela Larissa é uma das mulheres mais irrascíveis que já conheci, bocuda mesmo, precisa urgentemente de um relógio, mas tenho que admitir que é uma excelente aluna!
Larissa acha que o fulano é um dos homens mais arrogantes que já conheceu, tem certeza que é o rei da bala chita, precisa urgentemente de um aparelho de DVD, mas tem que admitir que o cara é um excelente professor.
Marcadores:
Alunos Professores Estudo
17 fevereiro 2008
Liberdade de Expressão e Otras Cositas Más
Tenho o hábito de observar as pessoas. Fico quietinha, observando seus gestos, caras e bocas, neste ou naquele ambiente, como reagem diante desta ou daquela opinião, através de palavras, gestos ou do silêncio. Isso quando não estou junto com quem observo ou a discussão não me diz assim muito respeito. Quero dizer, quando o assunto pra mim não vale o gasto de ATP´s. Aí eu me expresso pelo silêncio e fico observando. Também me silencio quando sei que a expressão verbal vai ser bombástica. Sou daquelas que dá um boi pra não entrar numa briga, mas uma boiada pra não sair mais dela. Aí, eu prefiro mesmo me poupar pra quando o confronto for inevitável.
Obviamente, nem sempre consigo controlar minha língua com tanta facilidade, mas na maior parte das vezes eu consigo sim (desde que eu queira). O problema é quando eu não quero me conter e acabo falando tudo que penso, usando o sentido das palavras com precisão cirúrgica pra manifestar minhas idéias. Não sou destas que consegue ficar em cima do muro, não dar opinião, me omitir diante do que acontece à minha volta e que influi direta ou indiretamente na minha vida. Pra piorar essa minha compulsão por opinar, parece que tenho conexão direta com algum satélite que me permite prestar atenção em tudo que está acontecendo no ambiente ao mesmo tempo e de participar de tudo simultaneamente. Esta minha conexão satélite chega a chamar atenção de algumas pessoas e irritar outras profundamente. E eu até me divirto com isto.
Quando adolescente, eu tinha uma certa dificuldade de identificar quando a briga era boa, quando valia a pena usar meu arsenal verbal pra matar uma formiguinha quando ignorar já seria suficiente. A maturidade me proporcionou uma visão mais ampla que permitiu fazer a análise custo-benefício do uso das palavras e da expressão de idéias de forma mais eficaz, evitando que eu gerasse traumas e situações, no mínimo, desagradáveis e constrangedoras pra mim e para outras pessoas. Além de formar uma falsa imagem do que eu sou. Costumo chamar este aprendizado de “filtro de sociabilidade”.
Meu filtro de sociabilidade está programado pra entrar em funcionamento sempre que ouço coisas do tipo: “não me interesso por política”, “você sabe com quem está falando?”, “como assim você NÃO quer ter filhos?”, “ah, não gosto muito de livro, não”, “cinema nacional não presta” e coisas congêneres. Aí eu me calo, mas começo a ter urticárias de vontade de responder “é por isto que o mundo está esta merda”, “com um bosta que acha que cargo e/ou sobrenome fazem dele algo mais que um simples mortal”, “não é que eu não queira ter filhos, é que eu simplesmente NÃO SUPORTO A IDÉIA de perder minha liberdade”, “compreensível você não gostar de livros diante da sua absoluta incapacidade de assimilar o conteúdo deles”, “não só presta como é premiado, por pessoas que não são culturalmente limitadas como você” e por aí vai.
Ultimamente meu filtro de sociabilidade tem ficado permanentemente em funcionamento, o que significa que tenho ouvido besteiras de forma sistemática. Significa também que uma situação de exceção tornou-se a regra, de forma que meu filtro de sociabilidade vem perdendo a razão de existir. Tive que fazer um ajuste na programação dele, sob pena de desenvolver uma úlcera nervosa. Perguntas como “como assim você NÃO quer ter filhos?” passaram a ser respondidas com “não é que eu não queira, eu queria muito, mas NÃO POSSO ter filhos, apesar de todos os tratamentos que já tentei e não passei no exame psicológico para adoção”. Pronto. O assunto morre imediatamente e o sem desconfiômetro nunca mais te aporrinha. Mas como me manter calada diante de coisas do tipo “sou concursado de tal lugar, mas só vou lá uma vez por semana”, “emprego toda a minha família no serviço público mesmo enquanto eu for prefeito”, “eu nunca voto, sempre justifico” ou “arrumei uma boquinha no serviço público”? Ajustei meu filtro de sociabilidade para se desligar automaticamente diante deste tipo de situação.
Minha avó dizia que sobre política, futebol e religião não se discute; e que gosto e cu, cada um tem um. Ela que me desculpe, mas não dá pra não discutir política, não dá pra não discutir educação e cultura. Cheguei à conclusão que errei ao manter por algum tempo o filtro de sociabilidade ligado em algumas situações. Há momentos em que não se pode e não se deve calar. Tampouco deixar de promover a defesa de suas idéias. E é o que eu tenho feito. Adoro um debate, adoro uma discussão. Acredito que é assim que se evolui. Principalmente no que concerne às políticas adotadas pelo governo e que influenciam diretamente a vida da população.
É transposição do Rio São Francisco? É a farra dos cartões corporativos? É pôr o Exército na rua pra combater violência? É boicote à tributação? Legalização de drogas, reforma agrária, transgênicos e cotas universitárias? Eu tenho uma opinião bem formada a respeito de tudo isto e vou me manifestar. Quem não concordar que arrume bons argumentos, pois eu não fujo da discussão. Basta uma fundamentação decente que o debate será mais que saudável, será produtivo e eu poderei até mudar de idéia. Mas não me venham com xurumelas, porque eu já estou por aqui de ficar ouvindo besteira dita na minha cara, de tentarem me empurrar goela abaixo os maiores absurdos. E se tem uma coisa que dispara um discurso combativo e, muitas vezes até agressivo, das minhas opiniões é ser tratada como uma imbecil, como uma alienada que desconhece a História do seu próprio país.
Obviamente, nem sempre consigo controlar minha língua com tanta facilidade, mas na maior parte das vezes eu consigo sim (desde que eu queira). O problema é quando eu não quero me conter e acabo falando tudo que penso, usando o sentido das palavras com precisão cirúrgica pra manifestar minhas idéias. Não sou destas que consegue ficar em cima do muro, não dar opinião, me omitir diante do que acontece à minha volta e que influi direta ou indiretamente na minha vida. Pra piorar essa minha compulsão por opinar, parece que tenho conexão direta com algum satélite que me permite prestar atenção em tudo que está acontecendo no ambiente ao mesmo tempo e de participar de tudo simultaneamente. Esta minha conexão satélite chega a chamar atenção de algumas pessoas e irritar outras profundamente. E eu até me divirto com isto.
Quando adolescente, eu tinha uma certa dificuldade de identificar quando a briga era boa, quando valia a pena usar meu arsenal verbal pra matar uma formiguinha quando ignorar já seria suficiente. A maturidade me proporcionou uma visão mais ampla que permitiu fazer a análise custo-benefício do uso das palavras e da expressão de idéias de forma mais eficaz, evitando que eu gerasse traumas e situações, no mínimo, desagradáveis e constrangedoras pra mim e para outras pessoas. Além de formar uma falsa imagem do que eu sou. Costumo chamar este aprendizado de “filtro de sociabilidade”.
Meu filtro de sociabilidade está programado pra entrar em funcionamento sempre que ouço coisas do tipo: “não me interesso por política”, “você sabe com quem está falando?”, “como assim você NÃO quer ter filhos?”, “ah, não gosto muito de livro, não”, “cinema nacional não presta” e coisas congêneres. Aí eu me calo, mas começo a ter urticárias de vontade de responder “é por isto que o mundo está esta merda”, “com um bosta que acha que cargo e/ou sobrenome fazem dele algo mais que um simples mortal”, “não é que eu não queira ter filhos, é que eu simplesmente NÃO SUPORTO A IDÉIA de perder minha liberdade”, “compreensível você não gostar de livros diante da sua absoluta incapacidade de assimilar o conteúdo deles”, “não só presta como é premiado, por pessoas que não são culturalmente limitadas como você” e por aí vai.
Ultimamente meu filtro de sociabilidade tem ficado permanentemente em funcionamento, o que significa que tenho ouvido besteiras de forma sistemática. Significa também que uma situação de exceção tornou-se a regra, de forma que meu filtro de sociabilidade vem perdendo a razão de existir. Tive que fazer um ajuste na programação dele, sob pena de desenvolver uma úlcera nervosa. Perguntas como “como assim você NÃO quer ter filhos?” passaram a ser respondidas com “não é que eu não queira, eu queria muito, mas NÃO POSSO ter filhos, apesar de todos os tratamentos que já tentei e não passei no exame psicológico para adoção”. Pronto. O assunto morre imediatamente e o sem desconfiômetro nunca mais te aporrinha. Mas como me manter calada diante de coisas do tipo “sou concursado de tal lugar, mas só vou lá uma vez por semana”, “emprego toda a minha família no serviço público mesmo enquanto eu for prefeito”, “eu nunca voto, sempre justifico” ou “arrumei uma boquinha no serviço público”? Ajustei meu filtro de sociabilidade para se desligar automaticamente diante deste tipo de situação.
Minha avó dizia que sobre política, futebol e religião não se discute; e que gosto e cu, cada um tem um. Ela que me desculpe, mas não dá pra não discutir política, não dá pra não discutir educação e cultura. Cheguei à conclusão que errei ao manter por algum tempo o filtro de sociabilidade ligado em algumas situações. Há momentos em que não se pode e não se deve calar. Tampouco deixar de promover a defesa de suas idéias. E é o que eu tenho feito. Adoro um debate, adoro uma discussão. Acredito que é assim que se evolui. Principalmente no que concerne às políticas adotadas pelo governo e que influenciam diretamente a vida da população.
É transposição do Rio São Francisco? É a farra dos cartões corporativos? É pôr o Exército na rua pra combater violência? É boicote à tributação? Legalização de drogas, reforma agrária, transgênicos e cotas universitárias? Eu tenho uma opinião bem formada a respeito de tudo isto e vou me manifestar. Quem não concordar que arrume bons argumentos, pois eu não fujo da discussão. Basta uma fundamentação decente que o debate será mais que saudável, será produtivo e eu poderei até mudar de idéia. Mas não me venham com xurumelas, porque eu já estou por aqui de ficar ouvindo besteira dita na minha cara, de tentarem me empurrar goela abaixo os maiores absurdos. E se tem uma coisa que dispara um discurso combativo e, muitas vezes até agressivo, das minhas opiniões é ser tratada como uma imbecil, como uma alienada que desconhece a História do seu próprio país.
Larissa reconhece que às vezes extrapola a combatividade, mas ainda não conseguiu fazer todos os ajustes no seu filtro de sociabilidade: ou se cala, ou se manifesta, correndo o risco de parecer agressiva ou sem educação sem ser de verdade uma coisa, nem outra.
Marcadores:
Liberdade de expressão Política
14 fevereiro 2008
Contra o Abuso Sexual Infantil e Adolescente. Em Defesa da Inocência e da Puberdade Saudável.

Eu queria realmente entender o que é que se passa com uma pessoa que tem coragem de abusar da inocência e ingenuidade de uma criança. Pra mim, não existe covardia maior. Infelizmente, a cada dia que passa os jornais nos surpreendem com notícias cada vez mais assustadoras sobre abuso sexual infantil e adolescente. E a covardia anda espalhada pra todo lado, onde menos se imagina.
Tenho um amigo que está com a úlcera quase perfurada, pensando seriamente em vender tudo, morar na praia com a família e abrir uma barraca de côco. Ele conta que enquanto foi advogado, nunca escolheu cliente, nunca disse não a uma causa. Não por falta de escrúpulos, mas sim porque havia feito um juramento e que não cabia a ele julgar –dizia – mas sim garantir que o cliente dele tivesse um processo dentro da lei. Assim, ele acabou defendendo (e dizem que brilhantemente) também casos de violência sexual e, algumas vezes, contra crianças e adolescentes. Sim, dava nojo, mas ele fazia um trabalho “técnico”, falava. Mas quando se tratava de pré-adolescentes e adolescentes, ele acabava se traindo e deixando a gente perceber que ele não acreditava em sedução de adolescente de fins do século XX e do século XXI.
Só que chegou uma hora que ele cansou da advocacia criminal, decidiu que ia passar pro lado de lá da mesa e acabou virando promotor de justiça. A vida tem seus mistérios: ele acabou parando numa vara criminal onde havia muitos casos de estupro e atentado ao pudor. Mas continuava não acreditando muito em abuso sexual de adolescentes quando o caso era de presunção legal. Falava que uma menina de 13 anos dos dias de hoje sabe exatamente o que está fazendo quando decide se relacionar com um homem.
Só que ele teve filhas, gêmeas, duas menininhas lindas, por sinal e um dia acabou me confessando que, na medida em que as meninas iam crescendo, o medo dele ia aumentando. No início, ele temia porque elas eram muito pequenas e criança aceita picolé, chocolate e chiclete de qualquer um se os pais não estão atentos. As meninas pareciam bebês de comercial de fralda de tão lindas e acabavam chamando muita atenção das pessoas. Então ele ficava sempre atento com estranhos que se aproximavam delas quando ele e a mulher estavam vigiando as duas de longe.
Aí, continuou meu amigo, as meninas cresceram, foram começando a virar mocinhas e eu comecei a perceber que, aos quinze anos, embora elas realmente já estivessem com o corpo em um estágio relativamente avançado de maturidade, esta maturidade não se refletia nas ações delas. E era isso que dava medo nele. As meninas, já mocinhas de quinze anos, se achavam as mulheres mais poderosas da face da Terra. Achavam que já tinham condição de decidir a direção da vida delas e brigavam muito com os pais por causa disso, atitude tipicamente adolescente. E algumas vezes elas saíram escondido e voltaram tarde pra casa, enquanto ele e a mulher se desesperavam ligando pros pais dos colegas, indo nos lugares onde elas poderiam estar e rezando pedindo a Deus que nada de mal lhes acontecesse. Ele disse que não conseguia parar de pensar nos casos que ele via diariamente no trabalho e sofria só de pensar que elas podiam ser vítimas de violência.
Ele havia se convencido de que eu não estava brincando: um adolescente, menino ou menina, se acha o dono do mundo, mas não é; e mesmo que tenha domínio sobre seu corpo, que saiba tecnicamente o que está fazendo, não tem maturidade, nem discernimento pra pensar nas conseqüências das suas decisões, independentemente de quais sejam estas decisões.
Esta conversa com meu amigo me marcou muito. Eu tenho, e sempre tive uma repulsa, um horror, especiais quando o assunto é violência sexual. Se envolve criança e adolescente então, pior ainda. Só que vejo pessoas saindo em defesa dos idosos (sim, creiam-me, há os que praticam violência sexual contra idosos), das mulheres adultas, das crianças, dos homossexuais, mas quando se trata de abuso sexual adolescente (presumido por lei), principalmente se a vítima é menina, sempre há questionamento antes, durante e depois da defesa se o caso era realmente de abuso ou se houvera consentimento.
Ouço pessoas dizendo que atualmente as meninas de doze anos já são mulheres feitas. Aonde? Porque o que eu vejo, é que, hoje, realmente as meninas de doze anos estão com o corpo bastante desenvolvido se compararmos com as meninas de doze anos de trinta anos atrás, vestem-se como se fossem adultas, agem como se fossem adultas, mas não estão definitivamente preparadas emocionalmente para assumir os riscos e conseqüências de uma vida adulta. Cadê as meninas-mulheres-feitas? Não existem, creio eu. Correm pra casa chorando quando alguma coisa ou alguém as magoa e pedem o colo dos pais. E quem se aproveita da inexperiência adolescente, pela qual todos nós passamos, pra se satisfazer é um covarde que usa uma imagem que ele mesmo sabe não representar a realidade como desculpa esfarrapada e vergonhosa pra abusar sexualmente de quem ainda não tem discernimento pra tomar determinadas decisões.
É por isso que eu saio em defesa das vítimas de abuso sexual, mas principalmente dos adolescentes, porque justamente a confusão hormonal pela qual eles naturalmente passam os torna mais vulneráveis e mais difíceis de proteger de quem só quer se satisfazer às custas da fragilidade deles.
Larissa aderiu à blogagem coletiva contra a pedofilia na última hora porque só agora ficou sabendo do movimento. Já denunciou e vai continuar denunciando sempre, mesmo que isto nunca acabe e mesmo que às vezes sinta que sua luta é inglória, porque a proteção de uma única criança ou adolescente já vai valer esta briga toda.
Marcadores:
Adolescente Crime Pedofilia
13 fevereiro 2008
Loucura, Esquizofrenia e Mau Caratismo: Tudo em Cena de Uma Só Vez
Usa-se muito a palavra loucura quando se acha que alguém agiu de forma que o senso comum não recomendaria – tipo sair gritando as pessoas pela rua – ou quando se teve coragem de soltar as amarras e, por exemplo, não se aceitou emprego num país de desempregados, terminou-se um namoro morno e se mudou pra outro país sem nem conhecer a língua. Há várias outras palavras que poderiam ser empregadas ao invés de louco. Quem grita as pessoas pela rua ou está bêbado ou desesperado ou surpreso ou é sem educação mesmo. Tecnicamente não se caracteriza loucura. Quem recusa um emprego, larga o namoro mais ou menos e se arrisca em outro país pode ser corajoso, arrojado, irresponsável, depende do ponto de vista de quem está avaliando. Mas tecnicamente também não se caracteriza loucura. Loucura é a qualidade ou o estado do louco, que pode ser aquele que perdeu a razão, o que está apaixonado, o brincalhão ou o furioso. Mas a loucura não é um estado necessariamente permanente. Quem nunca fez loucuras? Quem nunca se apaixonou, nunca brincou ou nunca se enfureceu? Eu, graças a Deus, tenho meus momentos de loucura. Saio às vezes na rua cantando em alto e bom som, dou gargalhadas por nada, me enfureço com buracos na estrada, sou uma mulher apaixonada. Louco é quem nunca cometeu uma loucura.
Mas há os “loucos” patológicos, a quem a medicina e a psicologia dão outros nomes. Dentre eles, há os esquizofrênicos. Esquizofrenia, de origem grega, significa mente dividida; a dissociação que existe entre o pensamento da pessoa e a realidade a sua volta. Esquizofrênicos criam um mundo paralelo à partir de um fato real. Conseguem elaborar conspirações fantásticas, exercem um papel importantíssimo nas tais conspirações, são o centro das atenções, porém, de uma realidade que só existe na cabeça deles. Quem não se lembra de John Nash, matemático norte-americano vencedor do prêmio Nobel de Economia? Nash teve uma vida sofrida e provocou muito sofrimento para sua família, mas nunca prejudicou ninguém. Não que eu tenha conhecimento, já que biografias autorizadas e filmes-homenagem não costumam contar os podres dos protagonistas. Mas há os esquizofrênicos não diagnosticados e estes sim podem provocar muito dano às pessoas à sua volta. Mesmo que todos percebam sua “loucura”, e dêem gargalhadas de suas teorias conspiratórias, sempre há alguém prejudicado pelas manifestações do esquizofrênico. E se para muitos os atos do esquizofrênico são motivo de riso, pro alvo da esquizofrenia não há nada de engraçado. No início, dá tristeza; depois dá pena. Esta loucura é doença, não tem cura e nem sempre o tratamento dá resultado. Definitivamente, não faz rir, nem cantar. Mas traz prejuízo, no mínimo emocional. E amigos meus estão passando por isto agora por terem convivido com um esquizofrênico não diagnosticado.
Há ainda quem chame – equivocadamente, na minha opinião – os portadores de transtorno bipolar também de “loucos” patológicos. Que a bipolaridade é um distúrbio, não duvido. Mas daí a ser louco patológico acho que tem uma distância. Convivo com algumas pessoas que têm a bipolaridade dignosticada (embora também seja difícil o diagnóstico, já que muitas patologias têm características em comum com a bipolaridade e a esquizofrenia) e todos eles seguem o tratamento. Nada impede que exerçam suas atividades, ninguém nem diria que são portadoras de sofrimento mental. Porém, os bipolares não diagnosticados podem trazer sérios problemas para si e para os outros. A alternância de humor pode levar o bipolar a agir de forma como nunca agiria e ninguém entende porque num dia a pessoa está eufórica e no outro está deprimida, chorando no canto da sala. Como o humor é inconstante, as pessoas taxam o bipolar de louco ou dizem “fulano é assim mesmo, instável, esquece que ele te xingou à toa, que gritou com você, releve, seja um espírito elevado”.
E a trouxa aqui foi relevando, relevando, relevando. Chegou a pensar que estava convivendo com um portador de transtorno bipolar mas, ao final, percebeu que alternância de humor, instabilidade, doença, loucura e mau caratismo não se confundem. E o que eu fui relevando, relevando, relevando, sempre após desculpas esfarrapadas de que “não estou numa boa fase...”, “precisamos pensar no grupo e não individualmente”, “ah, vai ter que dar!”, “o que é que você espera de mim às 15:00h!”, “preciso ir ao médico, não estou bem...” foi se mostrando um eficaz instrumento para manipular situações e pessoas até conseguir o que queria. Esquizofrenia, talvez? Também não. Mas sim um exemplo de mau caratismo. Aí você começa a analisar fatos passados e fica chocada: como é que não percebeu isto antes? Era tão evidente a prepotência, o autoritarismo, o orgulho, a soberba, o egoísmo, o individualismo e tantos outros ismos que não quero nunca ter como predicados!
E agora, mais esta! Achei que tinha ficado livre do mau caráter (e azar o dele se ele também é bipolar ou esquizofrênico), mas não. Ele volta à cena por meio de subterfúgios. Precisa de mim, mas o orgulho e a soberba, embora não o impeçam de ver isto nitidamente, o impedem de fazer uma simples ligação, enviar um e mail e resolver o problema. Na realidade, nem precisa. Pode resolver sozinho. Mas pra isso gastaria tempo e o tempo do mau caráter vale mais que o dos outros. Além do mais, o mau caráter autoritário gosta de mandar, gosta de sentir que manda e os outros obedecem. Então usou outra pessoa pra me mandar fazer uma coisa que eu não tenho obrigação nenhuma de fazer por conhecer o vínculo que me une a esta pessoa. Mas desta vez o mau caráter vai quebrar a cara. Porque a pessoa que ele acha que eu respeito acima de muita coisa, por quem eu até faria o que foi indiretamente ordenado sem nem questionar, também vem, há algum tempo, se mostrando, de forma mais inteligente, lenta e sutil, um outro mau caráter. E pessoas de mau caráter não são dignas de respeito, nem de consideração. Vai dizer de obediência!!
Espere sentado, mau caráter, o cumprimento de sua ordem. Porque ordens, quando já não há mais hierarquia, são cumpridas como favor, por respeito, não por temor ou sentimento de dívida. E eu não vou te fazer este favor não porque eu não te respeite ou não te tema mais, como você pensa e gosta de pensar. Eu não vou te fazer este favor é porque de fato eu nunca te temi, muito menos te respeitei!!
Larissa está chocada com os absurdos de que as pessoas são capazes, como inventar coisas e provocar prejuízo às pessoas, amoralmente ou inventar a mesma coisa, por mau caratismo, imoralmente. E ainda dizem que a louca é ela, que canta em voz alta na rua e no chuveiro!!
Marcadores:
Relações humanas
11 fevereiro 2008
Acordei bem, dormi com barulho
Acordei bem
Hoje (ontem, dia 10) eu acordei com o telefone azucrinando minha vida. Sabe quando você tá sonhando que conseguiu pegar aquele brigadeiro gigante (que sempre evaporava nas suas mãos) e tá enfiando ele inteiro na boca e acorda antes de sentir o gosto? Foi assim que eu acordei.
- Alô!, falei, mau humorada.
Hoje (ontem, dia 10) eu acordei com o telefone azucrinando minha vida. Sabe quando você tá sonhando que conseguiu pegar aquele brigadeiro gigante (que sempre evaporava nas suas mãos) e tá enfiando ele inteiro na boca e acorda antes de sentir o gosto? Foi assim que eu acordei.
- Alô!, falei, mau humorada.
- Oi, Larissa, é o Genilson (*). Te acordei?
- Ahnnn... mais ou menos, Genilson (constrangida ao ver que já era quase meio-dia); faz o seguinte: vou acabar de acordar, lavar a cara e te ligo daqui a pouco, pode ser?
- Não precisa, só liguei pra te contar que eu passei no vestibular da Federal pra Medicina.
Sabe quando você está sonhando e justamente quando o tubarão vai te pegar e te fazer em pedacinhos e mastigar com aqueles dentes afiadíssimos você acorda nos braços do Wolverine de sunguinha vermelha? Acabei de acordar assim!!
- Ai, que bênção, Genilson!! Vamos sair pra comemorar!! Parabéns!!
Sabe, toda vitória é especial, mas a do Genilson é mais ainda. Conheci o Genilson no serviço voluntário. Eu era voluntária e ele era detento. Estava cumprindo pena por tráfico de drogas e roubo. Era viciado em cocaína. Largou a droga. Cumpriu a pena. Nesse meio tempo, voltou a estudar. E agora vai fazer Medicina!! Que orgulho de ter incentivado meu amigo – sim, ele se tornou um amigo – a mudar de vida!!
Levantei, tomei um banho e fiquei cantarolando até ouvir uma que me deixou passada.
*******************************
Dormi Com Esse Barulho
Fui prum churrasco e lá, naquela difícil vida de piscina, cerveja e picanha com os amigos, ouvi um comentário de que o pai do fulano não aceitava que ele fosse amigo do Pedro (*) porque o Pedro era preto. Meus olhos quase saltaram das órbitas. Primeiro porque o Pedro tem que tomar muito sol na moleira pra poder ser tecnicamente chamado de preto. Segundo porque ainda que ele fosse preto igual jabuticaba isso não é critério pra definir quais são as boas amizades. Terceiro: puta que pariu que eu pensava que isso já tinha virado coisa de novela!! Quando externei meu puta que pariu, ouvi do Pedro:
- Lalá, se eu te contar que isso existe e muito você não vai acreditar. Outro dia minha sobrinha chegou lá em casa chorando aos cântaros. Perguntamos pra ela o que tinha acontecido e ela respondeu que não queria mais ser pretinha (eles a chamam carinhosamente de Pretinha, a menina é linda, tem cinco anos, parece uma indiazinha, cabelo lisinho, preto, uma tetéia), que queria ser branquinha, ter olhos azuis e cabelo lourinho de cachos, igual princesa pra ela poder ir à festinha de aniversário da colega de turma.
Desta vez meus olhos não saíram das órbitas, mas ficaram vidrados. Que tipo de gente é esta que faz isto com uma criança?!! A mãe da tal coleguinha de sala não convidou a sobrinha do Pedro pra festinha porque a menina na concepção daltônica dela é preta. E como é que se explica pra uma criança que é melhor nem conviver com gente que acha que a cor da pele – ou a religião, nacionalidade, orientação sexual, e por aí vai – não servem de critério pra se verificar nada de nada? Como é que se explica pra uma criança de cinco anos que o mundo ainda tá coalhado de espírito de porco? Fui dormir ontem pensando na menininha. Isto aconteceu ontem e até agora não consegui parar de pensar nisso. Como é que pode, meu Deus?
(*) Nomes fictícios pra preservar a identidade dos amigos.
Larissa está muito, muito feliz pela conquista do seu amigo e sabe que ele ainda vai enfrentar muitos preconceitos pelos erros que cometeu. Mas está muito triste por saber que uma criança já está sentindo na pele um preconceito que achava estar acabando.
Marcadores:
Conquista Preconceito
Assinar:
Postagens (Atom)